sábado, 4 de junho de 2011

David de Bernini

A versão de Bernini para David, executada entre os anos de 1623 e 1624, em minha opinião, supera em muitos aspectos a conhecida obra de Michelangelo.
Michelangelo presenteou-nos com um majestoso David, após derrotar o gigante Golias. Esplendorosamente esculpido de acordo com os ideais artísticos do Renascimento italiano, reverencia a harmonia das formas humanas, o rosto clássico, de beleza incontestável, nos transmite uma sensação de serenidade e reflexão após o dever cumprido.

Já a versão de Bernini nos intriga pela representação gestual. Suas feições exprimem a tensão frente a um imenso esforço físico.




Seu corpo está recurvado, pronto a lançar a pedra que atinge o gigante Golias na testa. Bernini consegue captar este exato instante.


Aos pés de seu David está a harpa, com a qual ele cantará suas vitórias, e ofertará a Deus seus lindos salmos.


Dica: Vale a pena uma releitura do Antigo Testamento, valiosa fonte de estudos da antiguidade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Apolo e Dafne

A segunda obra que mais gostei foi Apolo e Dafne, esculpida entre os anos 1622 e 1625 e ocupa sozinha o centro de uma grande sala na Galleria Borghese. A melhor palavra para descrevê-la estaria num meio termo entre a poesia e o encantamento.


Antes de Bernini, nenhum outro artista ousou esculpir a estória de Apolo e Dafne em mármore devido a sua complexidade.

Em seu livro "Metamorfose", Ovídio nos conta do amor de Apolo pela ninfa, após uma certeira flechada de Cupido. Mas Dafne representa a castidade e ao sentir sua impetuosa presença, invoca auxílio divino, transformando-se em uma árvore. Em um loureiro.


O instante dessa metamorfose é representado pelo mestre. A ninfa está transfigurando-se frente ao olhar do expectador e de um perplexo Apolo, em pleno movimento de captura. Seu dorso está parcialmente recoberto pelo tronco de uma árvore, enquanto seus dedos das mãos transformam-se em galhos, seus pés viram raízes e seus cabelos folhagens. O drapeado dos tecidos reforçam a idéia de movimento.


A obra não deixa espaço para moralismos, é eminentemente sexual, inapropriada diria, para decorar a vila do Cardeal Borghese e competir com as inúmeras outras esculturas que adornam a residência.
No entanto, foi considerada como sendo o retrato do triunfo da castidade sobre o desejo...


Em sua base, inscrições de versos latinos de Matteo Barberini a respeito dos prazeres carnais.

Curiosidades a respeito da obra:
A figura clássica de Apolo foi inspirada no famoso Apollo Belvedere dos museus do Vaticano.

Um único bloco de mármore foi utilizado para esculpir as duas figuras e a base. No entanto, Bernini teve um colapso nervoso ao perceber pequenas imperfeições na pedra, que apareceram enquanto ele estava trabalhando. Pequenas manchas escuras podem ser observadas na escultura, uma delas bem notável no nariz da ninfa.

O Rapto da Proserpina

Esculpida entre 1621 e 1622, a obra chama atenção pelo seu tamanho, destacando-se das demais, no centro de uma das salas.



Aproximando-nos, temos a impressão de que não é possível que seja feita de mármore, uma vez que as impressões táteis dos personagens saltam aos olhos. A carne de Proserpina é marcada pelos dedos de Plutão, na tentativa do rapto. Parece macia.


Plutão, figura rude e embrutecida, usa em sua cabeça a coroa de rei do mundo subterrâneo e tem seu rosto empurrado, com força, pela jovem, que se debate.


Suas forcas se contrapõem, dirigindo-se a lados opostos. Seus corpos, seminus, formam dois semi círculos. Aos pés, o cetro de duas pontas. Cérbero, o Cão de três cabeças, que nas obras de Dante Aligheri olha em três direções diferentes, guarda as portas do inferno e funciona como suporte para o grupo.

Bernini retrata a estória contada por Ovídio, em Metamorfoses:
Enquanto Proserpina colhia flores com suas damas de companhia em um bosque, Plutão, rei do submundo, observando sua beleza, fica encantado e resolve raptá-la. Este é o momento retratado pela escultura: Proserpina luta para livrar-se de seu raptor, chora, enquanto pede ajuda às suas amigas e socorro à sua mãe.
Ceres desce aos infernos para buscar sua filha, e acaba por fazer um acordo com Plutão: concorda em permitir que ele fique com sua filha durante seis meses do ano, conquanto que nos outros seis, Proserpina pudesse passar com ela na terra.
Essa lenda representa um mito antiqüíssimo, associado ao círculo da vida, da fertilidade, da mãe terra, das estações do ano.
Quando Proserpina retorna à superfície, a natureza desperta, coberta de flores e frutos. É primavera e verão. Mas as estações são efêmeras, e o escultor faz alusão ao mito da ressurreição, conectando-o ao de Proserpina.
Ao descer ao submundo, a terra volta adormecer, entra o outono e o inverno.
Na mitologia grega, Plutão era Hades e Proserpina, Perséfone.

Observações sobre a obra:
Na base da escultura, versos latinos que parecem ter sido ditos por Proserpina, alertando a respeito da efemeridade das flores da terra.
De acordo com os críticos, Bernini tirou sua inspiração de uma estatueta de Pietro da Barga, sobre o mesmo tema. Há quem diga que foi realmente um plágio...

A Galleria Borghese


Em um pequeno palácio construído entre os anos de 1613 e 1616, para o cardeal Scipione Borghese, hoje funciona este belíssimo museu, que é um de meus preferidos.
No ano de 1901, foi comprado pelo governo que o transformou em um parque público, abrindo seus jardins à visitação.
Pequeno, guarda a maior coleção de arte privada do mundo. O cardeal, que era sobrinho do papa Paulo V, tinha uma verdadeira fixação em obras de arte, não medindo esforços para adquirí-las, nem que para isso fosse necessário o uso da violência. Há relatos de que ordenou inclusive a prisão de uma pessoa, que se negava a vender-lhe A Caça de Diana.
Caravaggio, Rubens, Rafael, Leonardo da Vinci... estão todos lá bem ao alcance de nossos olhos!
Mas foram as esculturas de Bernini que mais me chamaram a atenção durante a visita. Algumas eu já conhecia de livros, mas observadas de perto ganharam uma outra dimensão. Saí de lá boquiaberta, e vou comentar nos próximos posts as minhas favoritas.

Como não é possível fotografar lá dentro, as imagens foram retiradas do google images, enquanto que para a redação dos textos, me utilizei dos dados contidos em um dos catálagos que estavam à venda na própria galeria:
Galleria Borghese 10 Masterpieces.
2009, Gebart S.p.A, Roma.

Para quem estiver em Roma e desejar visitar a galeria, saiba é preciso agendar a visita, que deve ter a duração de duas horas por grupo. O último grupo entra às 17:ooh em ponto. As reservas podem ser feitas pelo tel (00XX39-06) 3-2810.
Abre de terça a domingo, no horário que vai das 09 às 19 horas.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Visões de Roma

Nem de longe é minha intenção, com este blog, direcionar o leitor para este ou aquele passeio. Até porque Roma é uma cidade que a cada visita, se apresenta de uma maneira, afinal, são muitos séculos de história.
Também porque qualquer guia já publicado faz isso. Mesmo na internet deve ser fácil pesquisar roteiros do tipo receitas de bolo.
Eu proponho apenas andar a pé o máximo. Se possível, de posse de seu Roma Pass, que lhe garante entrada sem filas em duas atrações, inteiramente gratuitas e desconto nas demais, por três dias consecutivos. E ainda vale como bilhete de transporte nos ônibus e metrôs. Sugiro usar a dica que eu experimentei,tirada do blog Viaje na Viagem de Ricardo Freire: utilize o pass gratuito nas duas atrações mais caras que são o conjunto Coliseu-foro palatino e a Galleria Borghese. Esta última precisa ser reservada por telefone, peça no hotel.
Como o Vaticano não faz parte do Pass, deixe para o quarto dia, quando ele já tiver acabado.
Agora chega! Passemos às imagens...














Ristorante La Scala

Bem no coração do Trastevere, a poucos minutos de caminhada de nosso hotel, encontra-se o melhor nhoque que eu já comi na minha vida. Aliás, se me perguntarem qual é o meu prato favorito, eu diria que é o maravilhoso nhoque com lascas de trufas negras que provei no La Scala. Não tem nada igual, acreditem.


Derrete na boca, tem um sabor amanteigado e suave, e a combinação com as trufas não dá para descrever, só provando. Gostei tanto que voltei lá também no último dia para repetir o prato.
O restaurante, em si, não tem nada demais. É simples, o serviço eficiente e atencioso. Não é demorado, nem barulhento. Aliás, um barulho que gosto muito é o discreto estampido de uma garrafa de vinho sendo aberta. E nesse quesito, o ambiente é farto.
De entrada, pedimos um alcachofra à romana e um prato de ostras. Estavam frescas e maravilhosas!Olha elas aí:


Sobremesa? Não devíamos, mas copiamos o pedido da mesa vizinha, que nos encheu a boca dágua: mil folhas de chocolate com peras. Um pecado, poxa!




Para conferir: http://www.ristorantelascala.it
End:Piazza della Scala 58/61, Trastevere, Roma.

Hotel Campi de' Fiori em Roma


Quando percebi que na volta de minha viagem à Turquia, a conexão em Roma me deixaria esperando no aeroporto de por mais de cinco horas com mamãe, negociei com a operadora o fechamento da parte aérea para quatro dias depois, de modo a poder fechar com chave de ouro nossa aventura.
Achei que minha mãe ia ficar contente com essa surpresa, afinal ela poderia rever a cidade que conhecera na infância e entrar em alguns locais que tenho certeza que meu avô não a levou.
Só que a parte terrestre que me ofereceram era um daqueles hotéis de rede, amplos e confortáveis, nos arredores da cidade. Então, eu preferi fechar direto pela internet um hotel menor e sem estrelas, localizado próximo ao centro histórico, de onde eu poderia percorrer a pé toda a cidade.
Pesquisando, comparando preços e localizações, encontrei o Hotel Campi de' Fiori e a julgar pelas fotos do site, era justamente o que eu estava precisando...


Pequeno, funcionando em um prédio muito antigo (século XVII), contava com um pequenino elevador e era próximo às principais atrações . Dava para ir andando ao Pantheon e também ao Trastevere, onde pretendíamos jantar na primeira noite. Ficava juntamente em frente à praça onde Giordano Bruno fora queimado pela Santa Inquisição. Durante a semana, ali funciona uma feira, durante o dia. À noite, os diversos restaurantes e barzinhos ficam repletos de gente.


Me encantei pela saleta de café da manhã, que na verdade, era servido numa pequena e charmosa biblioteca. Este detalhe realmente foi o fator decisório. Não me decepcionei.



Chegamos abarrotadas de malas e sacolas, pois nos descontrolamos um pouco na Turquia. Fazia frio e a sensação que tivemos foi de estarmos voltando para casa. Na recepção nos sentimos acolhidas, pela simpatia dos atendentes e pela presença de uma agradável lareira, na salinha de estar próxima.


O quarto era bem pequeno, decorado à moda veneziana, com dossel, tecidos nas paredes, molduras douradas, cortinas de veludo com franjados, móveis de época.
Mas também contava com alguns confortos modernos, tais como frigobar, TV de tela plana, ar condicionado e box com uma super ducha. Além disso, as toalhas de banho e roupas de cama eram de muita qualidade.


Durante toda a estadia o staff do hotel nos apoiou, fornecendo mapas, reservando ingressos para concerto, passeio no Vaticano, e indicando o melhor restaurante que provamos na cidade (próximo post).
Fica aqui a dica, sem esquecer de mencionar que consegui um excelente desconto reservando pela internet, já que os preços despencam no inverno europeu.

End:Via del Bicione, 6.
End virtual:http://www.hotelcampodefiori.com

O Segredo de Frida Kahlo


Para aqueles que apreciam a arte de Frida Kahlo, ou o colorido da cultura mexicana, expressos não apenas nas pinturas, mas também na culinária, indico este livro.
Francisco Haghenbeck, ao escrever a obra, nos aproxima do universo da pintora, através de uma viagem desde sua infância, passando pelo acidente que mudou sua vida, seu encontro com o muralista Diego Rivera, seu engajamento na causa marxista, as amizades ilustres e finalmente, a relação íntima e estranha que tinha com a morte.
Traça uma linha do tempo, em que seus retratos pouco a pouco vão nos contando a respeito de seus sofrimentos. De quebra, nos oferece as receitas com que Frida encantava seus convidados, vivos e mortos.
Uma obra agradável e de fácil leitura, para uma tarde ou duas.

A Era dos Impérios- Capítulo Três

A ERA DOS IMPÉRIOS

Neste capítulo o autor justifica o título da obra com duas colocações: a primeira, relatando que nunca em outro período histórico houve a quantidade de governantes que se auto-intitulavam imperadores, ou cuja diplomacia ocidental acreditava merecer tal título.
Era o caso da Turquia, da Alemanha, da Áustria, da Rússia e da Grã-Bretanha. Além dos imperadores orientais, oriundos da China, do Japão, da Pérsia, do Marrocos e da Etiópia, sendo que os dois últimos mais considerados por cortesia. E nas Américas, até o ano de 1889, sobreviveu o imperador do Brasil.
E num sentido mais aprofundado, foi a era em que um novo tipo de império colonial se estabelecia. Entre os anos de 1880 e 1914, houve uma divisão formal do mundo, em territórios de dominação política. Na verdade, uma parcela considerável de continentes tornou-se colônia de meia dúzia de Estados.
Os favorecidos foram, evidentemente, os pertencentes às partes mais econômica e conseqüentemente , militarmente desenvolvidas: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, EUA e Japão.
Às custas dos países que ficaram à margem da Revolução Industrial, tais como Portugal e Espanha, antigos impérios europeus. Os despojos do Império Espanhol nas Américas e no Pacífico, ficaram a encargo dos EUA. Foi o caso de Cuba, Porto Rico e das Filipinas.
A maioria dos impérios asiáticos permaneceram independentes, muito embora, tenham sido delimitados como “zonas de influência”, devido ao seu desamparo político e militar. Algumas, como a Pérsia, sofreram administração direta, de acordo com o acordo anglo-russo de 1907.
A África e o Pacífico foram inteiramente divididos, com raras exceções: a Etiópia (que conseguiu resistir ao mais fraco dos Estados imperiais: a Itália), o Marrocos e a Libéria, considerada insignificante.
A primeira, teve seus territórios distribuídos entre os impérios : britânico, francês, belga, alemão, português e em menor escala, Espanhol.
Já o Pacifico foi fatiado entre os britânicos, franceses, holandeses, norte-americanos e alemães. Uma pequena parcela coube ainda ao Japão, não restando nenhum Estado independente.
Na Ásia, a Birmânia foi anexada ao império Indiano, que estava sob o domínio inglês, afirmando seu poderio nas áreas do Tibete, Pérsia e Golfo Pérsico. A Rússia avançou sobre a Ásia central, sobre a Sibéria e sobre a Manchúria.
Já os holandeses garantiram um controle mais efetivo nas regiões mais distantes da Indonésia.
Apenas uma parcela do planeta foi poupada: a extensão do continente americano. Isto ocorreu porque, na verdade, estava mais do que claro que, com exceção dos EUA, elas eram completamente dependentes do mundo civilizado. Por isso, foi a única região do globo em que não houve disputas entre as grandes potências.
Nem aos EUA, interessou a conquista das diversas repúblicas sul-americanas que co-existiam na década de 20, apenas o Canadá, algumas ilhas caribenhas, bem como parte deste litoral.
O autor considera que a criação de uma economia global única, foi o acontecimento de maior relevância do século XIX. Mas que a Era dos Impérios não se limitou aos aspectos econômicos e políticos, mas também culturais. Por meio do exemplo, os países dominados sofreram transformações sociais, ocidentalizando-se.
A ocidentalização, longe de ser vista como um aspecto negativo, foi uma proposta considerada efetiva pelas elites de governos diversos, como meio de sobrevivência e modernização. Foi o caso do Brasil, do México, e da Turquia (em seus estágios iniciais da Revolução Turca).
A ideologia predominante era o positivismo, tendo em Auguste Comte (1798-1857) seu principal mentor. O autor coloca que para as minorias ocidentais de vários tipos, o mais poderoso legado cultural do imperialismo foi essa: uma educação nos moldes ocidentais.
Em contrapartida, o mundo dependente ofereceu ao dominante o exotismo. O ocidente interessou-se imensamente pelas formas de espiritualização orientais. Também no campo das artes, foram aceitas as expressões dos dominados em pé de igualdade. Tanto isso é verdade que vemos influência das artes japonesas nos pintores franceses (como Monet), quanto nos defensores da art-dèco.
Mesmo as artes consideradas mais “primitivas” como era o caso das oriundas da Oceania e Àfrica, eram consideradas de primeira grandeza.
Mas nem tudo foram vitórias para as classes dirigentes. O Imperialismo gerou um tempo de incertezas, uma vez que nas metrópoles prevaleceu um sistema político eleitoral, democrático, enquanto que nas colônias, governava a autocracia. Além disso, uma pequena minoria de brancos efetivamente impunha-se à uma imensa massa destinada à inferioridade: assim preconizava os novos conceitos da eugenia.
O Império começou a ficar vulnerável, de dentro para fora. Imenso, desigual, global. A Europa, que vivia dos rendimentos do trabalho das denominadas “raças inferiores”, pouco a pouco preparava o terreno para a emancipação política e mais tarde, econômica, destes.

A Era dos Impérios- Capítulo Dois

UMA ECONOMIA MUDANDO DE MARCHA

Neste capítulo, Hobsbawn traça um panorama da economia mundial, bem como de seus aspectos políticos e sociais indissociáveis, da era que ficou conhecida como a “Belle Èpoque”.
Discute a depressão da economia mundial ocorrida no ano de 1889, contrapondo-se a essa idéia, demonstrando que neste período a produção de ferro duplicou, a de aço, tida como um indicador do conjunto de industrialização, multiplicou-se por 20 e houve um incremento considerável nas taxas de comercio internacional.
Com relação à América Latina, coloca que foi justamente nesta fase que os investimentos estrangeiros atingiram níveis assombrosos, além do aumento do numero de imigrantes.
No entanto, disserta a respeito d a opinião de historiadores que seguem a linha socialista que, de uma maneira geral, aguardavam um a invasão de imigrantes que ameaçariam a continuidade da civilização, apostando no colapso do capitalismo. Além da visão dos economistas e empresários que temiam a prolongada depressão de preços, juros e conseqüentes lucros.
A agricultura foi o setor que mais sofreu nas décadas de depressão, uma vez que a produção, que havia aumentado nas décadas anteriores, acabou por inundar o mercado mundial de excedentes.
A forma encontrada para a defesa da economia foi a formação de cooperativas, que rapidamente se multiplicaram em diversos países, bem como a emigração, considerada uma válvula de escape para minorar as pressões sociais, que poderiam acabar em rebeliões.
Com relação ao setor empresarial, a inflação foi favorável, pois aumentou a taxa de lucros e consequentemente , o número de concorrentes. O mercado de massa começou a desenvolver-se, embora muito mais vagarosamente do que o crescimento do número de novos produtos industriais.
Outra dificuldade encontrada foi a contraposição dos preços instáveis com as altas e baixas ditadas pelo mercado e os custos de produção estáveis, entre eles os investimentos com os equipamentos e o pagamento de salários.
A medida tomada em relação a depressão dos preços, lucros e taxas de juros, foi a prática do bimetalismo, ou seja, basear o sistema mundial de pagamentos tanto no ouro como na prata, abundante nas Américas, já que o ouro encontrava-se cada vez mais escasso. Tal prática, não era vista com bom olhos pelos grandes banqueiros, empresários e governos de países centrais do capitalismo.
Além disso, a política do protecionismo começou a ser praticada por governos que cederam aos apelos de grupos influentes, que buscavam proteger seus produtos nacionais, da concorrência dos estrangeiros. Também esta prática foi de encontro aos interesses óbvios da Grã-Bretanha, cuja economia era majoritariamente orientada para a exportação de produtos industrializados, além de serviços financeiros e de transporte.
Durante seu processo de industrialização, a Inglaterra relegou ao segundo plano sua agricultura, tendo se tornado um dos principais mercados consumidores de produtos primários e agrícolas. Este foi o ponto crucial, em que o autor coloca que a base do poderio econômico britânico se fez através da simbiose com a parcela “subdesenvolvida”do mundo.


Assim, a industrialização e a Depressão transformaram-se em grupos de interesse conflitantes, de tal forma que a concorrência deixou de existir apenas entre as empresas e estendeu-se às nações.
No decorrer do século XIX, as mais remotas regiões do planeta foram se transformando, na medida em que as práticas do capitalismo não reconheciam fronteiras e a política do liberalismo econômico era prontamente apoiada pela Inglaterra.
Com relação às práticas protecionistas, o autor credita sua existência à uma situação de concorrência econômica internacional.
Hobsbawn analisa seu impacto nos diversos setores, chegando à conclusão de que o protecionismo não comprometeu seriamente o crescimento, ao contrario, incentivou diversas indústrias nacionais a produzir para seus mercados internos e ajudou, ainda, a ampliar a base industrial do mundo.
Em seguida, ele relata as tentativas de ampliar as margens de lucro, através da formação de trustes e cartéis, além das fomas de “administração científica”que iam surgindo, uma vez que os tradicionais métodos de administração foram considerados empíricos e ultrapassados.
O “Taylorismo”propunha maximizar o potencial de trabalho dos operários através do isolamento do trabalhador de seu grupo, transferindo o controle do processo para os agentes da administração, além de uma divisão sistemática de cada processo em unidades cronometradas, sem mencionar os sistemas variáveis para o pagamento do salário, baseado no percentual de produção individual.
O surgimento do imperialismo foi outra saída plausível para os problemas empresariais. Tanto a pressão do capital à procura de investimentos lucrativos, quanto a produção crescente à procura de mercados, incentivaram as políticas expansionistas. Incentivaram o neo-colonialismo.
No ano de 1990, surpreendentemente, apenas um ano depois da Grande Depressão, a economia mundial foi assolada por um “boom” econômico, que teve como pano de fundo justamente a “Belle Èpoque”, como ficou conhecido o período que durou até a primeira Grande Guerra.
Alguns economistas buscam justificar este fenômeno com a descoberta de reservas de ouro na África do Sul e no Canadá. Outros, especularam sobre a existência de “ondas largas”, na qual o capitalismo flutuaria, de tempos em tempos.
De qualquer forma, as previsões marxistas a respeito da impermanência do capitalismo precisaram ser revistas.
Mas mais importante do que as justificativas, são as conseqüências deste período de euforia econômica: a redistribuição do poder econômico mundial, com o relativo declínio britânico e emergência dos EUA e Alemanha no cenário mundial.
A rivalidade entre os Estados foi uma característica marcante dessa época, bem como as relações experimentadas entre as parcelas desenvolvidas e subdesenvolvidas do planeta.
Mas a situação da Inglaterra permaneceu inalterada enquanto centro de operações das transações comerciais internacionais, exportando como nunca seus produtos industrializados para o mundo, enquanto importava produtos primários das nações subdesenvolvidas, estabelecendo, sob certa ótica, um meio de “equilíbrio global”.
Seu relativo declínio industrial serviu, portanto, para reforçar ainda mais seu poderio econômico.
Outras características da economia mundial do período foram: a revolução tecnológica, o domínio das indústrias produtoras de bens de consumo pelo mercado de massa, o crescimento acentuado do setor terciário da economia (trabalhadores de lojas e escritórios) e o avanço do coletivismo em detrimento da iniciativa individual.
Com relação a esta última característica, o aumento do papel do governo no setor público, acabou por causar um retraimento da economia de livre concorrência, gerar políticas de reformas voltadas para o bem estar social e ainda favoreceu o crescimento da indústria bélica.
Os anos de 1875 a 1914 foram um tempo de crescimento e transformação para a parcela “desenvolvida”do mundo. Muito embora a miséria rondasse a maioria dos trabalhadores, que tinham na abundancia de oferta de trabalho apenas um paliativo para suas dificuldades, as classes médias perceberam o período como uma época dourada, principalmente após os difíceis anos de pós-guerra.