Depois de cumpridas suas obrigações pessoais, para com a sociedade, a família e sabe-se lá mais com o quê, chega a hora do dia (ou da madrugada) em que sua sala lhe pertence, no mais absoluto silêncio. Nessa hora, em determinada poltrona, abre-se um livro e...
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
A CRUZADA ALBIGENSE (1209)
Envolta em lendas de cavalaria, essa famosa cruzada teve início, talvez ,em meados do ano de 1143, quando os cavaleiros cruzados partiram para o sul da Franca, especialmente nas cidades de Toulouse, Albi e Carcassone, em que um grupo dissidente denominado Cátaros, promoviam confrontos com a Igreja Católica e por isso eram considerados hereges.
Os cátaros eram dissidentes da Igreja Católica que se opunham às suas praticas tais como venda de indulgências, bem como o estilo de vida de seus clérigos.
Sua doutrina era completamente oposta a da Igreja tradicional. Acreditavam em um dualismo, em que havia um Senhor da luz em oposição ao Senhor das Trevas. Isso porque o Deus da Luz, em seu imenso poder, não poderia ter criado um mundo imperfeito.
Pregavam que só imitar o exemplo de vida de Jesus era o caminho para a salvação das almas, aceitavam a reencarnação e condenavam a adoração da cruz e imagens, evitavam as confissões e qualquer intermediário entre os homens e Deus (incluindo aí o papa) além de todos os ornamentos apreciados pela Igreja Católica.
A Cruzada Albigense promovida pelo papa Inocêncio II, e comandada por Simon de Montfort e em seguida pelo rei Luis VIII, durou 40 anos, arrasando a região cátara, muito embora houvessem muitos seguidores do catolicismo convivendo ali. O legado papal, sobre esta questão foi muito claro: “Matem-nos a todos. Deus se encarregará dos seus.”
Na prática, não foram as cruzadas que erradicaram o catarismo de forma definitiva e sim a Inquisicão que se iniciou na Espanha, país vizinho, e que se alastrou por toda a cristandade.
Quem, como eu, ama os romances de cavalaria, conhece os relatos de que o Santo Graal (o cálice usado por Jesus na Santa Ceia) esteve desde sempre em poder dos cátaros, contra os quais lutaram os cruzados.
Quando o castelo de Montsegur foi tomado, alguns cátaros fugiram na calada da noite, pelas muralhas do castelo e despenhadeiro abaixo, levando consigo a preciosa relíquia, até hoje perdida, exceto para alguns iniciados merecedores de conhecer o seu paradeiro.
A CRUZADA DAS CRIANCAS (1212)
Historicamente colocada entre a Terceira e a Quarta Cruzada, esta é ainda mais incrível.
No ano de 1212, 50 mil crianças saíram da cidade francesa de Marselha, num navio rumo a Jerusalém. Pretendiam com a forca de suas inocências, tomar a cidade saqueada pelos invasores turcos.
Alentados pela idéia de que só o bem prevalece em qualquer circunstancia, e que só as almas puras poderiam libertar a cidade, a Cruzada dos Inocentes, como também era conhecida, parte para longe de seus pais, para combater os mouros .
Imagino essas criancas caminhando e cantando pelas estradas, buscando chegar até Constantinopla, e sendo pouco a pouco, abatidas pelo frio e pela fome. A maioria esmagadora morreu pelo caminho. Algumas conseguiram alcançar a Itália e sumiram no mundo. Outras foram seqüestradas e escravizadas no Norte da África.
Antigas lendas? Relatos verídicos? De tudo um pouco. Disso também é feita a louca e bárbara história da humanidade.
(Ilustracão de Gustav Doré)
A CRUZADA DOS MENDIGOS (1096)
Essa incrível história definitivamente pertence ao imaginário da Idade Média, e explicita de forma muito clara os credos humanos desse período. Parecia natural que Deus provesse seus cavaleiros de forma absolutamente mágica, com todos os recursos que se fizessem necessários para o combate com os mouros.
De que outra forma poderíamos compreender o fato de que um eremita denominado Pedro, inflamasse o coração de multidões de populares com seus discursos e os convencesse a ir a pé pelas estradas, até o palco de batalhas, com as roupas do corpo, envolver-se em um conflito de imensas proporções, enfrentando o mais terrível exército de sua época.
Sem um tostão para empreender a longa jornada, estes cruzados-mendigos buscaram atacar os judeus europeus, das cidades vizinhas, nas cidades de Colônia, Praga, entre outras e espalhando o anti-semitismo pela Franca e Inglaterra, liderados por um conde lunático, que inspirado pelas palavras de Pedro, O Eremita, marcou a própria testa em cruz, com ferro em brasa.
Posso imaginar o estupefacto imperador bizantino Aleixo I Comneno recebendo na cidade de Constantinopla essa tropa de maltrapilhos desejosos de lutar. Primeiro tentou desaconselhar o confronto, pediu que aguardassem reforços equipados, mas vendo que seus esforços eram em vão, achou melhor permitir que acampassem fora das muralhas da cidade para evitar tumultos.
O exército turco não se manifestou em ir ao encontro dos invasores, sendo obrigado a combatê-los quando tentaram atacar e transpuseram as muralhas da cidade de Niceia.
Ao cortar a água da cidade, o sultão turco matou-os de sede, e aqueles que decidiram fugir foram exterminados por uma saraivada de flechas.
(Ilustracão de Gustav Doré)
AS CRUZADAS
Durante a expansão árabe, a cidade de Jerusalém foi conquistada pelos muculmanos, por volta do século XI, gerando enorme comoção popular e dando ao papa a oportunidade de promover uma Guerra Santa, mandando seus exércitos para o oriente, que disputava com Roma a primazia em questões religiosas. Com isso, o papa vislumbrou a oportunidade de unir a cristandade que se encontrava dividida, sob sua égide.
Imediatamente, o papa Urbano II, promoveu o Concilio de Clermont-Ferrand (1095), em que em um discurso inflamado, convocou a todos os seguidores de Cristo a empreenderem uma Guerra Santa, contra os infiéis muçulmanos,em que todos os participantes teriam seus pecados expiados por Deus. Criou uma ordem de cavaleiros sagrados, denominada de cavaleiros templários, que levavam no peito estampada a Cruz de Cristo.
Além da verdadeira intenção de expiação de todos os pecados, os soldados desejavam obter riquezas no oriente, já que vários nobres não possuíam terras, pois estas eram destinadas por herança aos primogênitos.
Já os mercadores europeus decidiram financiar as cruzadas visando o comércio com o Oriente, através de privilégios a serem conquistados nos novos territórios ocupados.
Foram nove as cruzadas oficiais, muito embora alguns historiadores desconsiderem algumas, até porque elas constituíram um movimento permanente em direção ao Oriente.
De certa forma, as cruzadas contribuíram com o renascimento comercial e urbano da Europa, uma vez que os contatos comerciais voltaram a se estabelecer com a abertura de novas rotas, a liberacão das antigas passando pela cidade de Constantinopla e principalmente pelo contato dos cavaleiros europeus com outras culturas.
Abaixo, publico um mapa do google, para melhor ilustrar a idéia das migracões.
Nos próximos posts, ao invés de relatar os detalhes de todas as cruzadas, assunto que pode melhor ser pesquisado em qualquer livro de história, pretendo tecer consideracões sobre as três não oficiais, pois são muito curiosas, no meu entender.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
O GRANDE CISMA DO ORIENTE (1054)
Como vimos nos posts anteriores, desde a divisão do Império romano em oriental e ocidental, com a subsequente transferência da capital de Roma para a cidade de Constantinopla, as duas Igrejas Cristãs se distanciaram. Enquanto que a parte oriental permanecera herdeira da civilização helenística, defendendo a tradição e o rito grego, a ocidental pereceu com a ocupação dos invasores estrangeiros , principalmente os de origem germânica, e transformou-se.
Evidentes disputas doutrinárias que defendiam cada qual seus direitos pela autoridade papal começaram a ocorrer.
Quando os papas passaram a apoiar o Sacro Imperio Romano, de Carlos Magno, em detrimento do Império Bizantino, a situação ficou insustentável.
Apesar da Igreja de Bizâncio respeitar a posição de Roma como originária de todo o império romano, opunha-se às exigências da Igreja católica e defendia uma estrutura hierárquica diferenciada, em que a figura de um chefe secular denominado patriarca, era reverenciada num sistema denominado cesaropapismo bizantino e por isso sofria, por seu lado, a oposição da Igreja Romana.
Entre os anos de 456 e 867, houve uma grave ruptura entre as duas Igrejas, em que o patriarca Fócio acusou de heresia o filioque que fazia parte do credo da cristandade ocidental.
A situação foi se agravando com o passar do tempo até atingir seu estopim no ano de 1054, em que o patriarca bizantino Miguel Cerulário foi excomungado por um cardeal da Igreja Católica ocidental. A Igreja Bizantina reagiu excomungando,por sua vez, o papa Leão XIX, naquilo que ficou conhecido como o Cisma do Oriente, dividindo a Igreja católica em duas:A Igreja católica apostólica romana e a Igreja ortodoxa, no oriente.
Esta separação enfraqueceu o império romano e fez com que a cidade de Constantinopla até então considerada uma fortaleza inexpugnável, fosse tomada pelos turcos otomanos em 1453, durante a IV Cruzada.
Evidentes disputas doutrinárias que defendiam cada qual seus direitos pela autoridade papal começaram a ocorrer.
Quando os papas passaram a apoiar o Sacro Imperio Romano, de Carlos Magno, em detrimento do Império Bizantino, a situação ficou insustentável.
Apesar da Igreja de Bizâncio respeitar a posição de Roma como originária de todo o império romano, opunha-se às exigências da Igreja católica e defendia uma estrutura hierárquica diferenciada, em que a figura de um chefe secular denominado patriarca, era reverenciada num sistema denominado cesaropapismo bizantino e por isso sofria, por seu lado, a oposição da Igreja Romana.
Entre os anos de 456 e 867, houve uma grave ruptura entre as duas Igrejas, em que o patriarca Fócio acusou de heresia o filioque que fazia parte do credo da cristandade ocidental.
A situação foi se agravando com o passar do tempo até atingir seu estopim no ano de 1054, em que o patriarca bizantino Miguel Cerulário foi excomungado por um cardeal da Igreja Católica ocidental. A Igreja Bizantina reagiu excomungando,por sua vez, o papa Leão XIX, naquilo que ficou conhecido como o Cisma do Oriente, dividindo a Igreja católica em duas:A Igreja católica apostólica romana e a Igreja ortodoxa, no oriente.
Esta separação enfraqueceu o império romano e fez com que a cidade de Constantinopla até então considerada uma fortaleza inexpugnável, fosse tomada pelos turcos otomanos em 1453, durante a IV Cruzada.
O MONOFISISMO: A NÃO ENCARNACÃO DO VERBO
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. "
(João 1:1,2,3,14 )
Doutrina variante do docetismo, foi determinante para a história do império bizantino e da cidade de Constantinopla. Floresce entre os séculos II e III, afirmando que Cristo não encarnou como preconiza a Bíblia, e sim assumiu uma aparência humana, como se fora um simulacro divino, uma espécie de ilusão, para apresentar-se diante dos olhos humanos. Portanto, a natureza de Deus seria única, jamais tendo tornado-se carne, afrontando o preceito da Santissima Trindade.
Tal doutrina foi um entrave nas tentativas de unificação religiosa do Estado por Justiniano entre os impérios orientais e ocidentais. Embora combatido pelo imperador, encontrava dificuldades na própria imperatriz Teodora, que era simpatizante do monofisimo.
Entre os séculos V e VII, em pleno período de invasões árabes, verificou-se que as populações que professavam o credo monofisita preferiam render-se aos invasores que continuar submetendo-se a opressão de Constantinopla.
A situação diplomática entre Constantinopla e a cidade de Alexandria, que professava o credo monofisita, era difícil, ainda mais quando a segunda abastecia a primeira de grãos, sendo considerada o celeiro do Mediterrâneo.
As implicações políticas também eram consideráveis. De um lado, os ricos monofisistas, que se desenvolviam de maneira independente em relação à Igreja Católica, de outro a hierarquia eclesiástica, que por sua vez estava envolvida na questão das disputas pela primazia religiosa de Roma contra a superioridade militar de Constantinopla.
Não podemos ainda nos esquecer que desde 392, Teodósio havia transformado o cristianismo em religião do império e assimilado as feições divinas ao titulo de imperador, gerando conflitos com a Igreja católica romana, cujo papa era o representante oficial de Deus na terra.
Apesar das tentativas que perduraram por mais de três séculos, de Constantino a Justiniano, em resolver tais conflitos, cai por terra a idéia de um império Romano do Oriente durante a dinastia de Heráclito (610-641), que o transforma paulatinamente em um Império grego do Oriente, distanciando-se ainda mais de uma possível unificacão.
A coroação de Carlos Magno pelo papa Leão III, no ano de 800, consagrando-o imperador dos romanos, desandou de vez as relações entre as partes oriental e ocidental e deflagrou toda a sorte de conflitos, cujas tentativas de resolução tornaram-se ainda mais desastrosas através de um casamento arranjado entre o imperador eleito pelo papa e a bizantina Irene.
Todas as condições para a Cisma do Oriente, que ocorreriam em 1054, estavam já presentes.
FONTE DE PESQUISA: Revista Historia Viva, ANO II, N 23, Duetto Editorial.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. "
(João 1:1,2,3,14 )
Doutrina variante do docetismo, foi determinante para a história do império bizantino e da cidade de Constantinopla. Floresce entre os séculos II e III, afirmando que Cristo não encarnou como preconiza a Bíblia, e sim assumiu uma aparência humana, como se fora um simulacro divino, uma espécie de ilusão, para apresentar-se diante dos olhos humanos. Portanto, a natureza de Deus seria única, jamais tendo tornado-se carne, afrontando o preceito da Santissima Trindade.
Tal doutrina foi um entrave nas tentativas de unificação religiosa do Estado por Justiniano entre os impérios orientais e ocidentais. Embora combatido pelo imperador, encontrava dificuldades na própria imperatriz Teodora, que era simpatizante do monofisimo.
Entre os séculos V e VII, em pleno período de invasões árabes, verificou-se que as populações que professavam o credo monofisita preferiam render-se aos invasores que continuar submetendo-se a opressão de Constantinopla.
A situação diplomática entre Constantinopla e a cidade de Alexandria, que professava o credo monofisita, era difícil, ainda mais quando a segunda abastecia a primeira de grãos, sendo considerada o celeiro do Mediterrâneo.
As implicações políticas também eram consideráveis. De um lado, os ricos monofisistas, que se desenvolviam de maneira independente em relação à Igreja Católica, de outro a hierarquia eclesiástica, que por sua vez estava envolvida na questão das disputas pela primazia religiosa de Roma contra a superioridade militar de Constantinopla.
Não podemos ainda nos esquecer que desde 392, Teodósio havia transformado o cristianismo em religião do império e assimilado as feições divinas ao titulo de imperador, gerando conflitos com a Igreja católica romana, cujo papa era o representante oficial de Deus na terra.
Apesar das tentativas que perduraram por mais de três séculos, de Constantino a Justiniano, em resolver tais conflitos, cai por terra a idéia de um império Romano do Oriente durante a dinastia de Heráclito (610-641), que o transforma paulatinamente em um Império grego do Oriente, distanciando-se ainda mais de uma possível unificacão.
A coroação de Carlos Magno pelo papa Leão III, no ano de 800, consagrando-o imperador dos romanos, desandou de vez as relações entre as partes oriental e ocidental e deflagrou toda a sorte de conflitos, cujas tentativas de resolução tornaram-se ainda mais desastrosas através de um casamento arranjado entre o imperador eleito pelo papa e a bizantina Irene.
Todas as condições para a Cisma do Oriente, que ocorreriam em 1054, estavam já presentes.
FONTE DE PESQUISA: Revista Historia Viva, ANO II, N 23, Duetto Editorial.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A REVOLTA DE NIKKA
No ano de 532, eclode uma revolta popular que quase muda o destino da cidade de Constantinopla. Oprimidos pelos pesados impostos com que o Imperador Justiniano contava para custear as guerras e os tratados de paz, bem como financiava as imponentes construções da mais importante cidade da Europa, o povo toma conta da cidade murada, promovendo uma matança e incendiando diversos locais, na tentativa de depor os imperadores e nomear um representante de sua classe.
O estopim da revolta teve inicio durante os jogos que ocorriam no hipódromo, em que times rivais, designados pelas cores verde, azul, branco e vermelho torciam por seus cavalos. Tais times representavam, na verdade, diversas classes sociais e funcionavam como uma espécie de “partido político”da antiguidade.
Em caso de empate, cabia a César a palavra final, e era de praxe que se favorecesse determinado grupo, o que não ocorreu naquele dia. O povo clamava por Nikka, o cavalo representante da plebe, que havia vencido por pouca diferença, mas o imperador decidiu em contrário, elegendo seu animal favorito.
A massa indignada, levantou-se e dando as costas a Justiniano, deixou o hipódromo antes do encerramento dos jogos.
Os verdes (comerciantes, artesãos, funcionários nativos das províncias) e os azuis (representantes dos proprietários rurais), uniram-se e a revolta expandiu-se feito rastilho de pólvora, por toda Bizâncio. Os revoltosos dominaram a cidade, dizimaram a guarda real e proclamaram um novo imperador.
Justiniano preparou navios para a fuga, mas foi detido pela imperatriz Teodora, que entrou para a História como uma mulher de imensa coragem.
Quem ler aqui no blog o post TEODORA- A RAINHA MERETRIZ, entenderá o porque dessa grande mulher ter se colocado a frente dos ministros e do próprio imperador, negando-se a embarcar e passando-lhes uma descompostura pela tentativa de fuga sem ao menos lutar.
Todos os relatos, livros e textos a seu respeito relatam que a imperatriz teria dito que não fugiria ainda que essa fosse a única salvação, pois quem um dia já usou uma coroa não poderia nunca sobreviver a sua perda. E que a cor púrpura, reservada aos imperadores, seria então a mais perfeita mortalha.
Justiniano não teve outra alternativa senão reagir, deixando a cargo de seu general Belisário a ofensiva.
A estratégia foi atrair para o hipódromo os revoltosos, e em seguida, trancar todas as saídas. O resultado foi uma carnificina em que quase 40.000 pessoas foram degoladas sem piedade pelas tropas imperiais.
Triunfante, Justiniano e Teodora puderam reinar de forma autocrática, como escolhidos de Deus e seus representantes na terra, apesar da revolta da Igreja católica sediada em Roma, cujo papa até então sempre fora o representante oficial de Cristo.
Até os últimos dias de sua vida Justiniano rendeu tributos a Teodora, e como sobreviveu a ela, costumava jurar pelo nome da imperatriz nas questões de grande relevância de Estado.
O estopim da revolta teve inicio durante os jogos que ocorriam no hipódromo, em que times rivais, designados pelas cores verde, azul, branco e vermelho torciam por seus cavalos. Tais times representavam, na verdade, diversas classes sociais e funcionavam como uma espécie de “partido político”da antiguidade.
Em caso de empate, cabia a César a palavra final, e era de praxe que se favorecesse determinado grupo, o que não ocorreu naquele dia. O povo clamava por Nikka, o cavalo representante da plebe, que havia vencido por pouca diferença, mas o imperador decidiu em contrário, elegendo seu animal favorito.
A massa indignada, levantou-se e dando as costas a Justiniano, deixou o hipódromo antes do encerramento dos jogos.
Os verdes (comerciantes, artesãos, funcionários nativos das províncias) e os azuis (representantes dos proprietários rurais), uniram-se e a revolta expandiu-se feito rastilho de pólvora, por toda Bizâncio. Os revoltosos dominaram a cidade, dizimaram a guarda real e proclamaram um novo imperador.
Justiniano preparou navios para a fuga, mas foi detido pela imperatriz Teodora, que entrou para a História como uma mulher de imensa coragem.
Quem ler aqui no blog o post TEODORA- A RAINHA MERETRIZ, entenderá o porque dessa grande mulher ter se colocado a frente dos ministros e do próprio imperador, negando-se a embarcar e passando-lhes uma descompostura pela tentativa de fuga sem ao menos lutar.
Todos os relatos, livros e textos a seu respeito relatam que a imperatriz teria dito que não fugiria ainda que essa fosse a única salvação, pois quem um dia já usou uma coroa não poderia nunca sobreviver a sua perda. E que a cor púrpura, reservada aos imperadores, seria então a mais perfeita mortalha.
Justiniano não teve outra alternativa senão reagir, deixando a cargo de seu general Belisário a ofensiva.
A estratégia foi atrair para o hipódromo os revoltosos, e em seguida, trancar todas as saídas. O resultado foi uma carnificina em que quase 40.000 pessoas foram degoladas sem piedade pelas tropas imperiais.
Triunfante, Justiniano e Teodora puderam reinar de forma autocrática, como escolhidos de Deus e seus representantes na terra, apesar da revolta da Igreja católica sediada em Roma, cujo papa até então sempre fora o representante oficial de Cristo.
Até os últimos dias de sua vida Justiniano rendeu tributos a Teodora, e como sobreviveu a ela, costumava jurar pelo nome da imperatriz nas questões de grande relevância de Estado.
sábado, 22 de janeiro de 2011
O Cheiro da viagem
Toda viagem tem um cheiro possível:
A do quarto do hotel,
do saguão do aeroporto,
da condução que nos aguarda,
do posto de gasolina,
da bala de fruta comprada ao acaso,
da chuva na montanha ou da maresia,
das panelas sobre o fogareiro,
do sabonete novo,
das roupas recém passadas na maleta esperando para serem usadas,
das pessoas no transporte coletivo,
da moca elegante que nos quer vender algo,
de urina no mercado municipal,
das cerejas e pêssegos expostos ,
do carpete do apartamento,
do cigarro do camarada na mesa ao lado,
de fósforo riscado,
do material de limpeza a base de pinho,
da comida gostosa prestes a ir parar na boca,
de vinho,
de doce,
De papel de embrulho dos presentinhos,
de canja,
de lenha ,
de café passado longe de casa,
de bolo,
dos guardanapos e toalhas de mesa limpos,
de alfazema sobre a roupa de cama,
de paredes muito velhas,
de salas arejadas,
de cortinas de veludo,
de pátios recobertos de folhas,
de museus repletos de obras e pessoas,
de livros empilhados,
da bolsa de couro que trouxemos, vazia,
de ruas com dejetos de animais,
de castanhas assadas,
e de laranjais.
Márcia Taube
P.S:
Para minha próxima viagem já escolhi o cheiro. De acordo com o clima e o que imagino que vá encontrar. Aquele que só será usado por mim nesse momento de viajar. Para que esteja sempre associado apenas a uma única e especial lembrança de vida: Bois d’Orange de Roger Gallet.
MA-RA-VI-LHO-SO! Bjs!
A do quarto do hotel,
do saguão do aeroporto,
da condução que nos aguarda,
do posto de gasolina,
da bala de fruta comprada ao acaso,
da chuva na montanha ou da maresia,
das panelas sobre o fogareiro,
do sabonete novo,
das roupas recém passadas na maleta esperando para serem usadas,
das pessoas no transporte coletivo,
da moca elegante que nos quer vender algo,
de urina no mercado municipal,
das cerejas e pêssegos expostos ,
do carpete do apartamento,
do cigarro do camarada na mesa ao lado,
de fósforo riscado,
do material de limpeza a base de pinho,
da comida gostosa prestes a ir parar na boca,
de vinho,
de doce,
De papel de embrulho dos presentinhos,
de canja,
de lenha ,
de café passado longe de casa,
de bolo,
dos guardanapos e toalhas de mesa limpos,
de alfazema sobre a roupa de cama,
de paredes muito velhas,
de salas arejadas,
de cortinas de veludo,
de pátios recobertos de folhas,
de museus repletos de obras e pessoas,
de livros empilhados,
da bolsa de couro que trouxemos, vazia,
de ruas com dejetos de animais,
de castanhas assadas,
e de laranjais.
Márcia Taube
P.S:
Para minha próxima viagem já escolhi o cheiro. De acordo com o clima e o que imagino que vá encontrar. Aquele que só será usado por mim nesse momento de viajar. Para que esteja sempre associado apenas a uma única e especial lembrança de vida: Bois d’Orange de Roger Gallet.
MA-RA-VI-LHO-SO! Bjs!
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
TEODORA, A RAINHA-MERETRIZ
Essa história é digna de filme. Mais espantosa ainda porque real, tendo chegado aos nossos dias graças aos relatos de um historiador da antiguidade chamado Procópio de Cesaréia:
Filha de um tratador de ursos de circo, Teodora conhece em Constantinopla toda a sorte de dificuldades após a morte do pai, uma vez que o honroso cargo de Mestre dos Ursos é entregue a outro pretendente, apesar dos esforços de sua mãe, que arranjara outro marido.
Em todo o império romano, os hipódromos representavam bem mais que um simples local de lutas e corrida de cavalos. Neste espaço, o público via seu imperador e opinava em questões sociais. Era a política do pão e circo da antiga Roma, perpetuando-se no império oriental.
Junto a suas duas irmãs, a mais velha contando sete anos, Teodora apresenta-se no hipódromo para suplicar pelo cargo a seu padrasto, de forma que pudessem sobreviver, deixando a decisão para os times Verdes e Azuis que assistiam as corridas. Tais times, acabariam por tornar-se partidos políticos.
O cargo ao padrasto lhes foi negado, e essa experiência nunca seria esquecida pela futura imperatriz, que recebeu da facção verde um tratamento desdenhoso e humilhante.
Órfãs, dedicaram-se ao teatro cômico e à prostituição. Segundo o historiador, a beleza de Teodora era suficiente para que suas graças se espalhassem por todo o império bizantino, onde não lhe faltaram admiradores e também severas criticas a seu comportamento escandaloso e libertino. Relacionou-se com homens nobres e poderosos, mas também com os das classes menos favorecidas, não fazendo distinção alguma de seus favores.
Foi amante do governador de Pentápolis, Hecébolo, com quem teve um filho. Mas por pouco tempo. Logo, a união desandou sob suspeitas de infidelidade e vida desregrada de Teodora, que se viu na extrema miséria na cidade de Alexandria.
O menino ficou aos cuidados do pai, na Arábia. Muitos anos depois, em seu leito de morte, um segredo seria revelado: o pai lhe contaria que ele era filho de uma grande imperatriz. Reza a lenda que o rapaz foi até o encontro de Teodora, mas esta temendo expor-se mais ainda de forma negativa, teria mandado mata-lo.
Em sonhos, a futura imperatriz ouvia vozes que lhe diziam que ela seria uma grande senhora, a soberana mais respeitada de todos os tempos. Guiada por estas vozes, volta à cidade de Constantinopla como uma nova mulher, assumindo uma vida mais regrada e decorosa, sustentando-se com o ofício de fiandeira.
Logo que conheceu o patrício Justiniano, ele se encantou por sua beleza , e resolveu protegê-la. Resolvido a casar-se com Teodora, enfrentou a mãe, aguardou a morte da imperatriz, esposa de seu tio, o Imperador Justino I que não aceitava uma ex-prostituta como membro da família. Então promulgou, em nome de seu tio, uma lei que concedia às artistas que houvessem se prostituído no teatro, o direito de casar-se, desde que estivessem arrependidas.
Ao assumir o trono de Constantinopla, o imperador Justiniano fez coroá-la na mesma cerimônia, junto com ele, dividindo assim seu poder de forma igualitária sem precedentes na história romana.
A seus pés, vieram beijar todos os homens poderosos com quem se deitara, além de todos os políticos dos partidos verde e azul, que certo dia a viram humilhar-se no hipódromo.
Teodora exerceu seu poder em diversos segmentos, não apenas opnando, mas resolvendo inúmeras questòes de Estado. Garantiu às mulheres direitos legais mais vantajosos em caso de divórcio, criou abrigos para as desamparadas, garantiu a pena de morte para casos de estrupro, entre outros feitos.
Morre por volta dos 46 anos, sendo considerada Santa pela Igreja Católica Ortodoxa.
Filha de um tratador de ursos de circo, Teodora conhece em Constantinopla toda a sorte de dificuldades após a morte do pai, uma vez que o honroso cargo de Mestre dos Ursos é entregue a outro pretendente, apesar dos esforços de sua mãe, que arranjara outro marido.
Em todo o império romano, os hipódromos representavam bem mais que um simples local de lutas e corrida de cavalos. Neste espaço, o público via seu imperador e opinava em questões sociais. Era a política do pão e circo da antiga Roma, perpetuando-se no império oriental.
Junto a suas duas irmãs, a mais velha contando sete anos, Teodora apresenta-se no hipódromo para suplicar pelo cargo a seu padrasto, de forma que pudessem sobreviver, deixando a decisão para os times Verdes e Azuis que assistiam as corridas. Tais times, acabariam por tornar-se partidos políticos.
O cargo ao padrasto lhes foi negado, e essa experiência nunca seria esquecida pela futura imperatriz, que recebeu da facção verde um tratamento desdenhoso e humilhante.
Órfãs, dedicaram-se ao teatro cômico e à prostituição. Segundo o historiador, a beleza de Teodora era suficiente para que suas graças se espalhassem por todo o império bizantino, onde não lhe faltaram admiradores e também severas criticas a seu comportamento escandaloso e libertino. Relacionou-se com homens nobres e poderosos, mas também com os das classes menos favorecidas, não fazendo distinção alguma de seus favores.
Foi amante do governador de Pentápolis, Hecébolo, com quem teve um filho. Mas por pouco tempo. Logo, a união desandou sob suspeitas de infidelidade e vida desregrada de Teodora, que se viu na extrema miséria na cidade de Alexandria.
O menino ficou aos cuidados do pai, na Arábia. Muitos anos depois, em seu leito de morte, um segredo seria revelado: o pai lhe contaria que ele era filho de uma grande imperatriz. Reza a lenda que o rapaz foi até o encontro de Teodora, mas esta temendo expor-se mais ainda de forma negativa, teria mandado mata-lo.
Em sonhos, a futura imperatriz ouvia vozes que lhe diziam que ela seria uma grande senhora, a soberana mais respeitada de todos os tempos. Guiada por estas vozes, volta à cidade de Constantinopla como uma nova mulher, assumindo uma vida mais regrada e decorosa, sustentando-se com o ofício de fiandeira.
Logo que conheceu o patrício Justiniano, ele se encantou por sua beleza , e resolveu protegê-la. Resolvido a casar-se com Teodora, enfrentou a mãe, aguardou a morte da imperatriz, esposa de seu tio, o Imperador Justino I que não aceitava uma ex-prostituta como membro da família. Então promulgou, em nome de seu tio, uma lei que concedia às artistas que houvessem se prostituído no teatro, o direito de casar-se, desde que estivessem arrependidas.
Ao assumir o trono de Constantinopla, o imperador Justiniano fez coroá-la na mesma cerimônia, junto com ele, dividindo assim seu poder de forma igualitária sem precedentes na história romana.
A seus pés, vieram beijar todos os homens poderosos com quem se deitara, além de todos os políticos dos partidos verde e azul, que certo dia a viram humilhar-se no hipódromo.
Teodora exerceu seu poder em diversos segmentos, não apenas opnando, mas resolvendo inúmeras questòes de Estado. Garantiu às mulheres direitos legais mais vantajosos em caso de divórcio, criou abrigos para as desamparadas, garantiu a pena de morte para casos de estrupro, entre outros feitos.
Morre por volta dos 46 anos, sendo considerada Santa pela Igreja Católica Ortodoxa.
JUSTINIANO, “O IMPERADOR QUE NUNCA DORME”
Nascido na atual Macedônia, no ano de 483, em uma família miserável, vai para Constantinopla educar-se sob as graças de seu tio Justino, um soldado baixo do exército que acabou tornando-se imperador.
Habilidoso e inteligente, estudou direito, retórica e teologia, exercendo grande influência sobre o tio iletrado, que lhe outorgou o título de César. Em 527, participou do assassinato de Justiniano e foi proclamado seu sucessor.
Imediatamente lançou-se no projeto de restauração e unificação do Império romano, estimulando as artes, o comércio e a indústria, consolidando a autonomia de seu império e fortificando as fronteiras.
Entre seus grandes feitos está o Código Justiniano, que reuniu todas as constituicões desde a época do imperador Adriano , salvaguardando assim a herança do direito romano e afirmando o poder ilimitado do imperador. Por dez anos, revisa e aperfeiçoa o direito romano, como o conhecemos hoje.
Além disso, após 20 anos de guerras, o império bizantino alcançou sua máxima extensão, reocupando territórios ao longo do mediterrâneo.
Sob ameaça constante do império Persa, que fora reunificado sob a dinastia Sassânida, por diversas vezes se vê obrigado a comprar a paz com seus vizinhos, a peso de ouro.
No campo religioso, buscou solidificar o monofisismo, uma doutrina que rapidamente se espalhou e tornou-se forte principalmente no Egito e na Síria. Com o objetivo maior de unir o Ocidente com o Oriente, utilizou também a religião para garantir a soberania do Estado. Sua consagrada fórmula “um Estado, uma Lei, uma Igreja”, sintetiza as aspirações absolutistas do Imperador.
Considerava-se um eleito de Deus. Perseguiu judeus e pagãos e interferiu nos negócios da Igreja, utilizando-a como viga mestra de seu Império. Julgando a Escola Filosófica de Atenas um dos baluartes do paganismo, decreta sua extinção, fechando a Academia de Platão em 529.
Inúmeras obras de engenharia são realizadas sob seu comando, entre elas a Catedral de Haegya Sophia, em homenagem ao saber e as Catedrais dos Santos Apóstolos, onde mais tarde seriam depositados seus restos mortais em 565.
Apesar do Império Bizantino ter conhecido o esplendor durante seu reinado, Justiniano entrou para a História como um dos mais impopulares imperadores, tanto pelos pesados impostos impostos à população, quanto pela forma autoritária e feroz com que combatia seus adversários, a exemplo do que ocorreu na Revolta popular de Nika, de que trataremos mais tarde.
Seu amor pela Imperatriz Teodora foi um caso à parte, e sendo assim, merece ser contado em outro post!
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