Depois de cumpridas suas obrigações pessoais, para com a sociedade, a família e sabe-se lá mais com o quê, chega a hora do dia (ou da madrugada) em que sua sala lhe pertence, no mais absoluto silêncio. Nessa hora, em determinada poltrona, abre-se um livro e...
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O visitante- Márcia Taube
Todos os dias, no fim da tarde, sento-me na soleira dessa casa imaginária, que julgo habitar e aguardo com os olhos aflitos o regresso de alguém que virá de surpresa. Esse alguém sem sexo definido, usa um chapéu de palha e monta um pangaré. Vem de muito longe, me trazendo algum agrado embrulhado em papel almaço e fita de barbante.
Nunca avisa. Nunca vem.
Esse alguém podia ser meu pai, meu avô morto, minha amiga para sempre esquecida.
Não tenho pressa nessa chegada, pois me agrada a longa espera.
Enquanto fito o horizonte inexistente, agradeço a Deus por aquilo que julgo faltar em minha vida ser tão pequena coisa. Aguardo, pois, com alegria e esperança, minha querida visita.
Márcia.
Meu chatíssimo, queridíssimo e amadíssimo blog
Te confesso que andei desanimada de escrever. Até porque acho que ninguém lê as minhas coisas. Até porque eu sou chata pacas. Minha filha disse que devia por muitas fotos, poucos comentários, falar sobre algum interesse em comum entre esta que vos escreve e a maioria das pessoas. Mas todo mundo que eu conheço curte sair a noite, viajar para lugares descolados que não acho graça, conversar coisas que me cansam. Quase ninguém gosta de viajar só para comer coisas, frequentar sebos, lugarejos ermos,missas gregorianas, espetáculos de clássicos revisitados,feiras, floriculturas e cemitérios, de preferencia sozinha, com meus parentes idosos ou meu marido, que preferia (mil vezes) curtir um bom hotel. Apesar da minha idade, eu sou muito, muito velha.Poucos amigos corajosos, me aturam.
Pensei em silenciar este blog. Mas, para o azar de todos (rsrsrs!)mudei de idéia quando recebi um post do Antônio Calloni, agradecendo a reprodução de seu poema. Poucas palavras, delicadas. Do fundo do meu coração percebi que buscava essa inteiração com o mundo.Agora, digam ao povo que fico.
domingo, 2 de maio de 2010
Tenho andado encantada com a cadeira de História Cultural, sonhando com o dia em que terei tempo de sobra para ler todas as obras desejadas, em especial as de Peter Burke, principal historiador cultural de nossa geração, de quem comprei o livro O que é Hist´ria Cultural, da Jorge zahar Editora. Mas o trecho abaixo é de outro livro, e de outra autora,com os devidos créditos ao final da leitura, a quem destaquei por ter amado o seguinte pensamento:
" (...)Tanto as sociedades arcaicas quanto as modernas, contemporaneas, tecnologizadas possuem seus sistemas imaginários de representação, a construírem verdades,certezas, mitos, crenças. Todos os homens vivem, diz Boia, ao mesmo tempo, em um mundo prosaico, das coisas do cotidiano, e em um mundo do fabuloso, do desejo e do sonho. O que é certo, assevera Boia, é que nenhuma sociedade vive fora do imaginário e que é uma falsa questão separar os dois mundos, o do real e o do imaginário.
Sabe-se, contudo, que nem sempre foi assim e que, por longo tempo,o imaginário esteve relegado ao mundo da fantasia, da ilusão, do não real, da não-verdade, do não-sério. Contribuíram para isso como é possível entender, o advento do racionalismo cartesiano do século XVII, seguido pelo cientificismo das Luzes para prolongar-se pelo século XIX, animado pelo cientificismo, pelo evolucionismo e pelo progresso. Em pleno século XX, tanto o marxismo quanto o pensamento de Sartre colaboraram para acentuar a distinção entre o chamado mundo do real e aquele do não-real ou imaginário. Diante da pureza do conceito, na sua capacidade de realizar abstrações sobre o mundo, Sartre colocava a imaginação como um degrau inferior do pensamento.
É, verdadeiramente, com o advento da História Cultural que o imaginário se torna um conceito central para a análise da realidade, a traduzir a experiencia do vivido e do não-vivido ou seja, do suposto, do desconhecido, do desejado, do temido, do intuído. "
Trecho extraído do livro: Históra e História Cultural, de Sandra Jatahy Pesavento.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Receita de Cosmopolitan
Comprei em Floripa uma caixa de suco de Cranberry, para fazer esse cocktail,que pretendo preparar e curtir em meu feriado de tiradentes,com a família, revendo Sex and The City! Não se preocupem, as crianças vão tomar coca cola light! Taí a receita:
30ml de vodka
15ml de triple sec
15ml de suco de cramberry
15ml de suco de limão
servido em uma taça de martini.
Para acompanhar, tapas espanholas...
Oba! Viva um da de folga!
Mandem presentes para mim- Antonio Calloni
Não sabia que Calloni escrevia. Hoje eu soube e apreciei ainda mais as suas artes. Para mim, ele é o maior dentre os atores nacionais. O Gerard Depardieu do Brasil. Transcrevo, pois, sua poesia, para dividir a descoberta com os amigos:
"Mandem presentes para mim
mandem presentes para mim
muitos presentes
muitas caixas
volumosas
pequenas
com laços
ou sem
mandem presentes para mim
muitos presentes
artesanais
industriais
com afeto
com defeitos
mandem presentes para mim
com embrulhos originais
comuns também servem
leves
pesados
perecíveis
eternos
mandem presentes para mim
mandem a espingarda paterna inutilizada
o Santo Antonio da mãe
a casa eterna da infância
as irmãs restituídas
a avenida de nome Iraí
onde a merda da rima nasceu
lugar onde eu cresci
mandem presentes para mim
do céu
do inferno
do pai
do filho
do espírito nem sempre santo
mandem presentes para mim
mandem caixas
e mais caixas
mantimentos
coisas inúteis (fundamentais para o bom funcionamento
da alma)
objetos com design moderno
um sentimento
mandem presentes para mim
mandem desespero
tempero
um par de alegrias
alergia eu já tenho
mandem um teto solar
o sexo da puta
mandem dinheiro
relógios de ouro
mandem meu reflexo
uma armadilha
mandem a história de Narciso
para eu embrulhar o peixe
mandem presentes para mim
muitas caixas
brinquedos
bonecos do Star Wars
quero viver com sorte!
mandem presentes para mim
se não mandar eu mesmo compro
sem parar
que a tristeza é tão indecentemente óbvia
quem falar em carência leva um tiro!
quem falar em sublimação é um bosta!
meu desejo é legítimo!
quero vencer a morte!
quero vencer a morte!
quero vencer a morte!
mandem presentes para mim. "
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Tudo o que não sei sobre o amor- Fernando Koproski
"Procura-se uma Musa que goste de brigadeiros, que quando me olhe, olhe um olhar de pétalas imediatas, procura-se uma musa que me lembre luas na noite nublada. Que goste de dormir com chuva, prefira a sombra de uma dúvida ao escuro de qualquer certeza, procura-se uma musa que tenha lábios de halls cereja. Que goste de acordar tarde. Que quando sonhe, sonhe sonhos de valsa, de tango ou de bolero. Procura-se uma musa que enfim queira o que eu quero. Que quando dance, distraída, faça de minha vida um filme, aonde o amor cada cena que a gente aguarda e não espera. Procura-se uma musa que tenha pressa de primavera. Tratar com Fernando Koproski."
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Das verdades
Aos ouvidos moucos,pouco.
Aos olhos cegos, pó.
Simples como isso.
Quem aos porcos pérolas insiste,
acaba por passar por dono da verdade.
Muitas sendo as verdades, uma só prevalece,
De acordo com o interesse de quem a leva.
Tudo ou quase tudo é interesse.
Muitas são as visões distorcidas.
Aguardemos o desenrolar dos fatos,
espiando da última frisa.
Márcia
terça-feira, 30 de março de 2010
A despedida do meu avô
Eu tive um vô muito legal, que foi como um pai para mim. Não vou contar aqui as inúmeras histórias, porque a bem da verdade, se parecem com as histórias de todo mundo.
Apenas direi que fez de minha infancia e parte da juventude um pouco mais felizes.E que morreu um pouco antes de eu completar quinze anos.
Isso foi marcante porque foi uma festa sonhada, no clube Piraquê, onde éramos sócios. Minha mãe já havia fechado o buffet e ele também queria que houvesse fogos de artifício. Mas o que ele mais sonhava era dividir com meu pai o momento da valsa, que teria sido a Valsa do Imperador. Eram os anos oitenta e os quinze anos meio que estavam fora de moda, mas para mim e algumas outras, ainda era um momento muito esperado.
Claro que nem preciso contar que a festa foi cancelada, mas essa definitivamente não é a história de uma festa que não houve e que afinal, nem lamentei.
No mês de julho, invariavelmente, viajava com meu pai e partimos em uma excursão para foz do Iguaçu, Paraguay, entre outros, que terminava em São Paulo. Nos últimos dias dessa viagem comprida, tive medo que meu avô morresse, tentei ligar para casa e não consegui falar. Quando retornei,na sala, junto de minha mãe e avó, estava minha professora de matemática e amiga da família, a irmã Guiomar. Elas estavam tão desamparadas, coitadinhas, que acharam melhor chamar alguém para dar a noticia para mim e para minha irmã. Mas também não era essa a história que valeria a pena entrar em detalhes.
Na verdade, o que eu queria mesmo contar é que por muito tempo me atormentou a idéia de que eu não havia me despedido do meu avô. Meu pai já esperava lá em baixo, as malas na porta e ele falava ao telefone com o Padre Neves, dizia que ia fazer essa cirurgia com o Dr Zerbini e em breve estaria novo. Saímos gritando, apressadas, um tiau pra todo mundo, e nunca mais voltamos a ve-lo.Esse último momento, sem abraços, sem um adeus, por muito tempo me entristeceu.
Tanto que de certa feita, no metrô, avistei um senhor que se parecia com ele e o acompanhei com o olhar. De costas, ia para a escada rolante da estação Botafogo. O mesmo terno, guarda-chuvas no braço, o jeito de caminhar...Então, antes que a porta do vagão se fechasse, consegui escapulir. Tentei alcançá-lo e foi preciso um esforço, pois era hora do rush, e a multidão andava em sentido contrário. Quando cheguei perto, ele virou e claro, nem se parecia com ele. Também não tive coragem de falar nada, quanto mais pedir um abraço, até porque o sujeito apertou o passo, deve ter achado que eu era perigosa!
Só sosseguei na manhã seguinte em que tive um sonho muito real. Eu estava no quarto, dormindo, mas minha irmã não estava lá. Aí meu avõ chegou e me acordou. Então eu pude dar aquele abraço que estava faltando. Mas foi tão verdadeiro, que é difícil de explicar.Também foi estranho o fato de que ele se despediu de mim, me consolou e vestido com o terno de sempre, saiu. Até hoje me recordo do que disse, mas acredito que para a maioria das pessoas seja irrelevante. Importa apenas que de algum modo, apesar da saudade imensa, não houve mais tristeza e meu sonho surtiu o efeito desejado e libertador.
Bem, prolixa que sou, resume-se o texto a este último parágrafo.Eu queria contar que meu vô me visitou num sonho e que essa história eu não tirei de nenhum livro.
segunda-feira, 29 de março de 2010
A ARTE DE AMAR - Ovídio
Ovídio, 43aC-17dC
¨ A ELEGÂNCIA
Mas não vá frisar seus cabelos a ferro, nem gastar suas pernas esfregando pedra-pomes.Deixe esses cuidados áqueles que, com gritos à moda frígia, celebram a deusa do monte Cibele. Uma beleza sem aparatos assenta aos homens. Quando a filha de Minos foi raptada por Teseu, este não tinha arranjado sua cabeleira sobre as temporas por meio de grampos. Hipólito foi amado por Fedra, apesar de sua aparencia exterior negligente. Vimos uma deusa se agradar por um hóspede selvagem das florestas, Adonis.É pela simples elegancia que os homens devem agradar. Que sua pele seja bronzeada pelos exercicios no Campo de Marte, que sua toga caia bem e não tenha manchas. Que seu calcado esteja corretamente amarrado, que as fivelas não estejam enferrujadas. Que o seu pé não esteja perdido e nadando num sapato muito largo, que um corte mal feito não enfeie nem arrepie sua cabeleira, que seus cabelos, sua barba sejam cortados por mãos experientes, que suas unhas estejam bem cortadas e limpas, que nenhu pelo saia das narinas, que um hálidto desagradável não saia de uma boca malcheirosa e que o odor do macho, pai do rebanho, não fira as narinas. Todo o resto, abandone ou às jovens lascivas, ou aos homens, que, contra a natureza, procuram o amor de um homem.¨
Publius Ovidius Naso, nascido em 43a.C.foi considerado um dos maiores poetas da Roma clássica, escrevendo sobre mitologia, amor, entre outros temas. Nesta obra,escrita por volta do ano 1a.C, o autor realiza um trabalho de auto-ajuda para os apaixonados da época, verdadeiro tratado sobre técnicas de seducão. No entanto, envolveu-se em um escândalo de natureza sexual, como são os melhores escândalos. Infelizmente, a amante era neta do imperador romano Augusto, que o baniu para o mar negro, e mandou apagar da cidade todas as marcas de sua presenca. No exílio, inconformado com seu destino, após escrever inúmeras cartas sobre seu infortúnio, morre em 17 d.C. Seus belos versos influenciaram Chaucer, Shakespeare,Dante entre outros.
Triste fim para um grande poeta!
¨ A ELEGÂNCIA
Mas não vá frisar seus cabelos a ferro, nem gastar suas pernas esfregando pedra-pomes.Deixe esses cuidados áqueles que, com gritos à moda frígia, celebram a deusa do monte Cibele. Uma beleza sem aparatos assenta aos homens. Quando a filha de Minos foi raptada por Teseu, este não tinha arranjado sua cabeleira sobre as temporas por meio de grampos. Hipólito foi amado por Fedra, apesar de sua aparencia exterior negligente. Vimos uma deusa se agradar por um hóspede selvagem das florestas, Adonis.É pela simples elegancia que os homens devem agradar. Que sua pele seja bronzeada pelos exercicios no Campo de Marte, que sua toga caia bem e não tenha manchas. Que seu calcado esteja corretamente amarrado, que as fivelas não estejam enferrujadas. Que o seu pé não esteja perdido e nadando num sapato muito largo, que um corte mal feito não enfeie nem arrepie sua cabeleira, que seus cabelos, sua barba sejam cortados por mãos experientes, que suas unhas estejam bem cortadas e limpas, que nenhu pelo saia das narinas, que um hálidto desagradável não saia de uma boca malcheirosa e que o odor do macho, pai do rebanho, não fira as narinas. Todo o resto, abandone ou às jovens lascivas, ou aos homens, que, contra a natureza, procuram o amor de um homem.¨
Publius Ovidius Naso, nascido em 43a.C.foi considerado um dos maiores poetas da Roma clássica, escrevendo sobre mitologia, amor, entre outros temas. Nesta obra,escrita por volta do ano 1a.C, o autor realiza um trabalho de auto-ajuda para os apaixonados da época, verdadeiro tratado sobre técnicas de seducão. No entanto, envolveu-se em um escândalo de natureza sexual, como são os melhores escândalos. Infelizmente, a amante era neta do imperador romano Augusto, que o baniu para o mar negro, e mandou apagar da cidade todas as marcas de sua presenca. No exílio, inconformado com seu destino, após escrever inúmeras cartas sobre seu infortúnio, morre em 17 d.C. Seus belos versos influenciaram Chaucer, Shakespeare,Dante entre outros.
Triste fim para um grande poeta!
domingo, 14 de março de 2010
A Viagem de Shihiro
Ir ao cinema pode muito bem ser um prazer egoísta, em que um saco enorme de pipocas e um big refrigerante zero são as melhores companhias. Adoro freqüentar as primeiras sessões, com as salas ainda vazias, o ar condicionado bem gelado, as poltronas reclináveis e aquele cheiro, que só as salas de cinema tem, misto de carpete novo, jujubas e manteiga .Adoro especialmente o barulho das balas sendo desembrulhadas.
Dentre os inúmeros filmes inesquecíveis que vi, destaco A Viagem de Shihiro, que assisti no Botafogo Praia Shopping, no Rio de Janeiro, alguns anos atrás.
Nesse desenho animado feito para adultos, emocionei-me como raramente ocorre comigo, em uma cena em especial : Shihiro está sentada num trem, completamente vazio, que viaja em alta velocidade. De repente, o trem para numa estação, as portas se abrem e entra o monstro, que senta-se ao seu lado. Ela não tem medo, continua sentada, com as mãos no colo, tão sozinha e desamparada quanto ele, imenso e medonho. De alguma forma se entendem, ele não a devora, são companheiros de viagem.
É um desenho japonês muito bonito, uma fábula de ajuda mútua, fraternidade, busca interior, luta contra nossos muitos medos. Nem preciso dizer que identifiquei-me com a garotinha...
Um filme para ser visto assim, sozinha, como a personagem, para uma melhor compreensão do que está sendo mostrado. Quem puder, veja.
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