segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sumiço

Tenho tido muito pouco tempo para minhas próprias coisas, por isso abandonei um pouco, sem remorsos, esse espaço de troca de idéias. Os cachorros tiveram carrapatos, as crianças precisaram de acompanhamento escolar, nutricionista, griparam, além de terem crescido e necessitado de mais roupas e sapatos. Semana final de provas, serviços, horas extras, reuniões de grupo, sem que eu pudesse comparecer. O carro ficou dois meses sem lavar e se não fosse a empregada, nem frutas haveria na geladeira. Morri por uns meses. Submergi no caos. Flanei em pensamentos, muitos politicamente incorretos, por uns tempos, poucas horas ao dia. Cobranças de todos os lados, nenhuma assistida, todas relegadas. Aniversários aconteceram em que não comprei presentes, nem dei telefonemas. Nem todos entenderam, achando que não me importo. De fato, por esses tempos, não me importei, abandonei-me e a todos. Mas enfim, porque este mês é aniversário do marido e da filha, achei por bem reagir e voltar para o mundo dos vivos. Hoje comecei a ler O Amante de Lady Chaterley, e que pena que ele não nos choque mais, atualmente! Beijos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá - Uma história de amor

“Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros ao contrário, além de acreditar, afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da Primavera ou mesmo no rigor do Inverno."



Minha avó recebeu uns parentes de Belo Horizonte para um lanche em casa. As visitas trouxeram presentes para as crianças, eu e minha irmã, que devíamos ter oito e seis anos, respectivamente.
Chocolates lingua de gato da Kopenhagen, caramelos, e o mais belo livro infantil que já tive o prazer de ler, e que ainda hoje figura entre meus preferidos: O gato malhado e a andorinha Sinhá.
Fiquei encantada com as ilustrações do gato bigodudo, de dentes arreganhados, sexuado demais para um livro infantil. A história de um gato malvado que se apaixona por uma andorinha é belíssima e cheia de passagens poéticas. Seus capítulos levam os nomes das estações do ano, e como tal, refletem os interiores dos personagens envolvidos nessa impossível história de amor.
Meu trecho favorito, engraçadíssimo, é aquele em que o gato, perdido de amor, resolve escrever um poema para a andorinha, buscando no fundo de sua alma o que dizer, faz um espetacular plágio de " a baratinha ya-yá, a baratinha yo-yo, a baratinha bateu asas e voou". É de chorar de rir.
O conto, escrito em Paris por Jorge Amado, foi feito com a intenção de presentear seu filho, no primeiro aniversário, no tempo em que ele morou lá, com Zélia Gatai. Ficou perdido entre as coisas do menino, até que o mesmo, já crescido, resolve tornar público esse escrito. Caribé fez as ilustrações originais. Um verdadeiro presente para crianças de qualquer idade. Buscando comprá-lo pela internet, para presentear o meu garoto, descobri que já foi musical e atualmente é peça de teatro em cartaz em São Paulo.

“O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e dona andorinha.”

Coloco este legado de Jorge entre uma de minhas melhores lembranças literárias da infância.



Márcia Taube

sábado, 6 de setembro de 2008

Uma certa viagem



Comprar um bilhete aéreo para qualquer lugar do planeta, exige antes de mais nada, certo desprendimento. Não apenas financeiro, como também, de certas convenções que se prestam a fazer com que permaneçamos sempre atrelados a uma série de obrigações.
É preciso ter coragem para dizer adeus ao chefe e colegas de trabalho e ter a certeza de que ao voltar, não seremos vítimas de pequenas surpresas, tais como ver seu nome indicado para alguma situação em que não estando presente, não teve como defender-se. Isso é mais comum do que se imagina.
Além do que, caminhar longe da segurança de seus domínios, sem estar cercada de seus próprios móveis e coisas, pode ser viciante.
O desapego contínuo pode acabar revelando que temos muito mais do que julgávamos necessário, ou pior, que aquilo que chamávamos de "nossas coisas" deixaram de ter sentido.
A súbita compreensão de que as muitas coisas que acumulamos ao longo dos anos e que hoje coabitam à volta de nossa existência, parecem não mais nos pertencer, é assustadora.
Longe dos meus habituais sapatos, temo descobrir que necessito de novos caminhos. Sem qualquer um de meus seletos objetos, afasto-me aos poucos da lembrança do presente, que escolhi.
A compra de um bilhete aéreo, convida o viajante a uma auto-visita, em país estrangeiro. Aos amigos que me perguntam, recomendo que embarquem, para terem no regresso, a certeza de que estiveram sempre no lugar desejado, nas cidades e nos apartamento corretos. Só assim a rotina dos dias não lhes será pesada.
Boa viagem!
Márcia Taube

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Desejos de eremita.

Já deve ter lhe acontecido de você estar numa festa e perceber que talvez fosse melhor ter ficado em casa, pois as pessoas que lá estão, nada tem a ver com você. Reuniões em que, logo de cara, segregam-se os casais, imaginado que os assuntos entre os sexos são divergentes, em pleno século 21! Mulheres de um lado, tentando ser agradáveis, buscam desempenhar o papel que imaginam lhes caber, tais como servir salgados, fazer o pratinho das crianças, conversar sobre assuntos cotidianos, do domínio de todos, para que ninguém se sinta excluído. Nesse caso, nada melhor que as agruras domésticas, entre outras pérolas. Alguns temas, por delicadeza, não convém. Para que falar de suas conquistas no trabalho, da viagem maravilhosa que fez, dos novos autores que descobriu, se certamente, nem todos os presentes podem partilhar desses assuntos? Você pode parecer esnobe ou pedante. Os homens, claro, falam sobre trabalho, através de perguntas mais ou menos diretas, medem-se socialmente. As ocasiões em que conversam sobre mulheres, esportes e em especial, futebol, não é necessariamente a mesma em que têm a oportunidade de vestir um terno e uma gravata. Tais assuntos ficam melhor empregados em clubes ou em rodinhas com a turma do escritório. Caso não faça parte de nenhum casal, pior para você, ocasião em que será alvo de avaliações detalhadas por ambos os times, e haja jogo de cintura para bancar a divertida-inofensiva-e-gente-boa! Há situações em que, de copo na mão, você percebe que o assunto está para lá de arrastado, mas não consegue desvencilhar-se dele. Superficial, previsível, enquanto a boca fala a primeira coisa que lhe ocorre, os olhos vagueiam pelo salão, em busca de socorro. Ainda assim, nada pode ser pior do que encontrar aquela amiga extrovertida e eloqÜente, verdadeira metralhadora de palavrórios, onde você tentando balbuciar algumas frases coerentes, percebe que está à margem do diálogo. Ela fala só. Por acaso, você está presente, mas ela não lhe viu. Ou então, espera que fale a última palavra, para retomar seu assunto do ponto em que parou, ela só precisa ser ouvida, nada mais. Banalidades, mediocridade, falsos encontros. O que buscam as pessoas, insistindo em ir a lugares como esses que descrevi? Ocupar um vazio social, sentir-se parte integrante de um meio, muito embora não esteja certa de pertencer a ele. Porque o pior de tudo é sentir que não faz parte de nada, que convive bem demais com a propria vontade de estar só. De estar satisfeita com seu egoísmo e que a intolerância em relação aos defeitos alheios, pode estar mascarando um desejo de destacar-se da tribo. Um desejo de eremita, em não ser contrariado. Um alívio. Uma doença. Uma dolorosa paz. Márcia Taube.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Revolução dos Bichos-George Orwell

Queridos amigos: Houve um lugar no mundo, onde os animais seguiam um criterioso mandamento: 1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo. 2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. 3. Nenhum animal usará roupas. 4. Nenhum animal dormirá em cama. 5. Nenhum animal beberá álcool. 6. Nenhum animal matará outro animal. 7. Todos os animais são iguais. Posto isto, só nos resta o deleite de reconhecer nesse maravilhoso livro de Georte Orwell, personagens da revolução comunista, na extinta União Soviética. Imaginem um sítio onde os animais, explorados e maltratados pelo homem, resolvem criar uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos seriam considerados verdadeiros "camaradas". Sob o comando de dois porcos revolucionários, em clara alusão á Trotsky e Stalin, os animais conseguem expulsar o fazendeiro, tomar o poder, e ensinam os sete mandamentos acima aos demais bichos, trocando o nome da granja para Granja dos Bichos. Para as ovelhas, animais de QI menos elevado, assimilarem o que estava acontecendo, resumem os sete mandamentos em "quatro patas bom, duas patas ruim". O hino "bichos da Inglaterra", criado pelos porcos, levava os animais às lagrimas. Para livrarem-se do jugo servil ao homem, os bichos nunca trabalharam tanto. Muito mais do que quando não eram livres. Constroem um moinho para gerar energia e prosperando, começam a vender seus produtos para os homens, sempre convencidos pelos porcos que pequenas concessões deveriam ser feitas em prol de um bem maior. Um dos porcos difama e expulsa seu antigo companheiro, que mesmo no exílio, sempre é citado como bode expiatório para tudo de errado que surge durante o solitário governo do porco ditador. Sempre convencidos de que os porcos tinham razão, mesmo quando tinham direito a regalias que os demais animais não desfrutavam, tais como ração diferenciada, usufruir dos luxos da casa do antigo fazendeiro, certa manhã, os animais acordam com uma novidade de cair os queixos: No local onde antes estava escrito os sete mandamentos da Animalia, agora apresentava as seguintes modificações: 4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis. 5. Nenhum animal beberá álcool em excesso. 6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo. 7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros. TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS- Apreciem amigos, todas as palavras e cada letra desta frase! Aclamado como líder pela unanimidade dos animais, o porco Napoleão, torna seu poder de fato por de direito, bane a canção dos Bichos da Inglaterra, as marchas dominicais, os desfiles, a cor da bandeira e dá a revolução por terminada, já que a sociedade teria atingido o ápice esperado. A granja passa a chamar-se Granja do Solar e os vizinhos seres humanos passam a ser admitidos. Os amigos humanos parabenizaram os porcos pelos métodos modernos de ordem e disciplina impostos. Os bichos não conseguem recordar-se se suas vidas seguiram conforme o prometido, se era melhor ou não na época do fazendeiro homem e não se surpreendem em escutarem as ovelhas balirem que " quatro patas bom, duas patas melhor!" Transcrevo o último trecho dessa curiosa fábula: "Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco." George Orwell foi um ferrenho defensor das milícias marxistas, até deparar-se com o horror do Stalinismo. Lutou na Guerra Espanhola,ao lado dos comunistas. Desiludido, escreveu essa obra, que só pode ser publicada em 1945, com o término da guerra. Com essa metáfora, o autor abre nossa percepção para o fato de que os ditadores, revestidos de forma a enganar os olhos desejosos do povo, apropia-se desses desejos, para manipular o próprio povo. Através do medo, da sujeição, da omissão e do uso das palavras corretas, conclui o seu domínio, escondendo-se detrás da face do personagem criado pelo desejo popular. A História sempre se repete, de forma cíclica. A revolução dos Bichos nunca foi tão atual. Canção dos Bichos da Inglaterra: Bichos da Inglaterra e da Irlanda, Daqui,dali, de acolá, Escutai a alvissareira Novidade que virá. Mais hoje, mais amanhã, O Tirano vem ao chão, E os campos da Inglaterra Só os bichos pisarão. Não mais argolas nas ventas, Dorsos livres dos arreios, Freio e espora enferrujando E relho em cantos alheios. Riqueza incomensuravel, Terra boa,muito grão, Trigo,cevada e aveia, Pastagem, feno e feijão. Lindos campos da Inglaterra, Ribeiros com aguas puras, Brisas leves circulando, Liberdade nas alturas. Lutemos por esse dia Mesmo que nos custe a vida. Gansos,vacas e cavalos, Todos unidos na lida. Bichos da Inglaterra e da Irlanda, Daqui,dali, de acolá, Levai esta minha mensagem E o futuro sorrirá. Márcia Taube

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O poema- Mário Quintana

Um poema como um gole d'água bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como uma pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna. Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema. Triste. Solitário. Único. Ferido de mortal beleza.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Free for all !

Nada nesse mundo deveria ser pago, principalmento se forem artigos de primeira necessidade. Nem comida, nem escola, nem moradia, nem saúde. Também os artigos de segunda e terceira necessidades deveriam ter preços simbólicos. Todos deveriam ter acesso ao supérfluo e mesmo ao luxo. Que nesse caso, deixariam de ser luxos, pois não teriam mais a conotação de exclusividade. Não posso convencer minha empregada a trabalhar de graça, nem o piscineiro, ou eles me deixariam na mão. O curso de inglês, a academia de ginástica e Karatê não aceitariam esse tipo de proposta, o sansei riria na minha cara, estou bem certa disso. Fazer a feira sem levar dinheiro está fora de cogitação, nem mesmo na hora da xepa. Isso tudo é desgastante e me dá um cansaço do mundo. A bolsinha da vitrine pode não ser indispensável, mas dá mais graça ao meu viver, e também a impressão de que meu trabalho não serve só para pagar as conta de luz e do cartão de crédito. Todos os cartões de crédito, aliás, deveriam ter margem infinita, e as faturas não chegariam nunca. Tudo pelo bem da humanidade. Não haveria mais fome nem ignorância no mundo, estando todos os bens de consumo e a cultura ao alcance de todos. As crianças, em sua inocência, estão cobertas de razão quando ao nos pedir determinado brinquedo que lhes é negado, sob a desculpa de "mamãe hoje está sem dinheiro", respondem dizendo: "Ué, usa o cheque!"-Eu também gostaria que fosse assim! Não sou a favor do básico. Sou favorável a todos os supérfluos que as crianças têm direito. Biscoitos recheados, iogurtes de morango, bonecos de última geração, livros de Monteiro Lobato, Mark Twain, Julio Verne. Além disso, cinema com pipoca, todos os picolés em lançamento e peças de teatro. Disney para todos, não devemos ter preconceitos para agradar á infância e fazer seres humanos mais alegres e preparados. Fora disso, a realidade é brutal. Se eu trabalharia de graça? E porque não, se todos fizessem o mesmo? Antes que vocês imaginem que estou louca, visitem estes sites de restaurantes, onde as pessoas podem comer de graça se não tiverem dinheiro para pagar, ou trabalhar de graça, para sentirem-se melhor com o mundo: http://www.soallmayeat.org/ http://www.lentilasanything.com/ Não são as únicas opções, inúmeros locais como esses estão espalhando-se pelo mundo. No RJ, mesmo já existe um restaurante onde a caixinha é aberta ao público. Quem pode, paga os 10%ou mais, quem não pode, tira o quanto precisa, além de não pagar a conta. Nenhum desses lugares até hoje teve prejuízo, sinal de que as coisas não estão de todo perdidas, e que algumas pessoas ainda acreditam na dignidade do ser humano. Viabilizar idéias aparentemente loucas também é uma forma de encarar positivamente a vida. O descabido pode ser muito viável, se todos assim desejarmos. Plantar uma semente de esperança na materialidade das coisas. Eu desejo. Beijos, Márcia .

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Florbelianas

FANATISMO "Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver ! Não és sequer a razão do meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida ! Não vejo nada assim enlouquecida ... Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida ! "Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..." Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim ! E, olhos postos em ti, digo de rastros : "Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..." Queridos amigos: isso não é de Fagner! Foi escrito em 1923 pela poetisa portuguesa Florbela Espanca. Seus lindos sonetos parecem ter sido escritos pedindo para serem musicados! "Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!" Nascida em Évora, linda cidade portuguesa, que tive a oportunidade de visitar há oito anos atrás, com suas ruinas romanas dedicadas á deusa Diana. Teve uma história de vida conturbada, desde seu nascimento. A mulher de seu pai não podia ter filhos e seguindo uma tradição medieval, os teve com outra mulher, que acabou deixando o a poetisa e seu irmão para serem criados pelo pai e pela madrasta. Melancólica, escreveu aos sete anos seu primeiro poema: A VIDA E A MORTE "O que é a vida e a morte Aquella infernal enimiga A vida é o sorriso E a morte da vida a guarida A morte tem os desgostos A vida tem os felises A cova tem as tristezas I a vida tem as raizes A vida e a morte são O sorriso lisongeiro E o amor tem o navio E o navio o marinheiro" Mas além disso, seus poemas tratavam simplesmente de amor. E foram necessários um amor maior do que o outro, para que, carregados de erotismo, pudessem ser escritos. Precursores do movimento feminista, foram um escândalo! SÚPLICA "Olha pra mim, amor, olha pra mim; Meus olhos andam doidos por te olhar! Cega-me com o brilho de teus olhos Que cega ando eu há muito por te amar. O meu colo é arminho imaculado Duma brancura casta que entontece; Tua linda cabeça loira e bela Deita em meu colo, deita e adormece! Tenho um manto real de negras trevas Feito de fios brilhantes d`astros belos Pisa o manto real de negras trevas Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos! Os meus braços são brancos como o linho Quando os cerro de leve, docemente... Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te Nessa cadeia assim etemamente! ... Vem para mim,amor... Ai não desprezes A minha adoração de escrava louca! Só te peço que deixes exalar Meu último suspiro na tua boca!..." A morte de seu pai, a perda de duas gestações, as muitas separações ,o falecimento precoce de seu irmão, agravaram o estado mental da poetisa, que acabou por suicidar no dia de seu aniversário. VAIDADE "Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade! Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a terra anda curvada! E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho...E não sou nada!..." Mas não quero terminar com esse poema tão belo e tão triste. Prefiro fechar com esse outro, que talvez seja o meu favorito: OS VERSOS QUE TE FIZ "Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer. Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer! Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz! Amo-te tanto! E nunca te beijei... E nesse beijo, amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz!" Grande Florbela Espanca!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

viver para contar

" No dia 10 de Julho de 1939, minha mãe deu á luz uma menina com um belo perfil de índia, e que foi batizada com o nome de Rita pela inesgotável devoção que tinham lá em casa por santa Rita de Cássia, baseada, entre outras muitas graças, na paciência com que ela superou o gênio ruim do marido extraviado. Minha mãe nos contava que esse marido da futura santa chegou certa noite em casa enlouquecido pelo álcool um minuto depois de uma galinha ter plantado sua cagadela na mesa da sala de jantar. Sem tempo para limpar a toalha imaculada, a esposa conseguiu tapar a caca com um prato para evitar que o marido a visse, e apresssou-se em distraí-lo com a pergunta habitual: -O que você quer comer? O homem soltou um rugido: -Merda. A esposa então levantou o prato e disse com santa doçura: - Está servida. A história conta que o próprio marido se convenceu na hora da santidade da esposa, e converteu-se á fé de Cristo." Quem diria, que Santa Rita, hein? Os livros desse autor são muito interessantes, um caso atrás do outro, a maioria inverossímeis, mas muito divertidos, mágicos. Esse trechinho também foi só para dar água na boca, para quem morar perto de minha casa e prometer devolver eu empresto: Viver para contar é o nome da obra; Gabriel Garcia Márquez, o autor que dispensa apresentações.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Oscar Alfaro-poeta boliviano

Atrás da Igreja que fica no centro histórico de Santa Cruz de la Sierra, existe algumas livrarias, que visitei para buscar uma encomenda. Um de meus professores havia me pedido um livro de poesias de algum escritor boliviano. Até então não me ocorrera ler nenhuma poesia boliviana, nunca me interessei por esse assunto. Mas conheci Oscar Alfaro, e gostei muito. Na verdade eu adorei Oscar Alfaro e acabei comprando um exemplar para mim também. O nome do livro é Romancero. Não tem páginas e sim uma coleção de cartões com imagens de flores e paisagens bolivianas, em cujo verso ele escreve, magistralmente. Copio dois, aqui, para dar água na boca de todos: CANCIÓN DE LA LLUVIA Sobre los techos parlantes cantaban los aguaceros, salpicando de diamentes los airecitos copleros. Y en los terrenos fragantes trinaban los durazneros entre mil lluvias radiantes de luces y de luceros. !Ay! Mi villita canora que desgranaba en la sierra sus versos color de aurora... !Cómo quisiera yo ahora oir cantar a mi tierra, bajo la lluvia sonora!... SEMBRADORA DE ESTRELLAS La aurora despierta pintando las sierras y cruza por ellas la moza labriega... Relumbra su cesta colmada de estrellas y enjoya la tierra con astros que tiemblam... Y cuando se incendian de luces las huertas, la moza morena termina la siembra. Oscar Alfaro. Não, infelizmente não está a venda pela internet. É necessário algum amigo que se aventure até A Bolívia...